{"id":23469,"date":"2021-02-28T09:51:56","date_gmt":"2021-02-28T08:51:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/?p=23469"},"modified":"2021-02-28T09:51:56","modified_gmt":"2021-02-28T08:51:56","slug":"covid-19-plantas-medicinais-e-realidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/2021\/02\/28\/covid-19-plantas-medicinais-e-realidades\/","title":{"rendered":"COVID-19, plantas medicinais e realidades"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A esp\u00e9cie humana, quando n\u00e3o encontra explica\u00e7\u00e3o real para determinados fen\u00f3menos, procurou sempre sossegar as suas d\u00favidas ou inquieta\u00e7\u00f5es com fundamenta\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas. Por isso, inicialmente, a maioria das civiliza\u00e7\u00f5es foram regidas por normas mitol\u00f3gicas.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com o aumento do conhecimento, principalmente atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, muitos dos mitos v\u00e3o tendo explica\u00e7\u00e3o, embora, muitas vezes, inicialmente se duvide, por conveni\u00eancia, dos resultados cient\u00edficos. Como aconteceu, por exemplo, com Nicolau Cop\u00e9rnico (1473-1543) quando anunciou, que afinal a Terra n\u00e3o era o centro do Universo (geocentrismo); com Galileu (1564-1642) quando, atrav\u00e9s de c\u00e1lculos matem\u00e1ticos, comprovou a teoria do heliocentrismo de Cop\u00e9rnico e com Charles Darwin (1809-1882) quando publicou (24.XI.1859) os princ\u00edpios b\u00e1sicos da evolu\u00e7\u00e3o e \u201cA Descend\u00eancia do Homem e a Selec\u00e7\u00e3o Sexual\u201d (1871), acabando com o mito fixista. O mesmo aconteceu com Garcia de Orta (1501-1568), o fitoterapeuta quinhentista que mais contribuiu para o conhecimento das especiarias e plantas medicinais, algumas desconhecidas na Europa e que estudou e investigou experimentalmente muitas dessas plantas, tendo esclarecido muitas confus\u00f5es no uso de plantas medicinais conhecidas desde a Antiguidade Grega e divulgadas durante cerca de dezasseis s\u00e9culos atrav\u00e9s da obra \u201cDe Materia Medica\u201d (60-70) de Diosc\u00f3rides (c. 40-90). Apesar desta obra ser tida como uma \u201cB\u00edblia\u201d da fitoterapia, Garcia de Orta desmitificou muitos atributos miraculosos atribu\u00eddos a algumas plantas, como, por exemplo, do Aloe vera. N\u00e3o lhe perdoaram a afronta e ap\u00f3s a sua morte, exumaram os ossos e incendiaram-nos, assim como todos os volumes existentes em Goa da sua extraordin\u00e1ria obra \u201cCol\u00f3quios dos Simples e Drogas he Cousas Medicinais da \u00cdndia\u201d (Abril de 1563).<\/p>\n<p>Infelizmente, mitos e fabula\u00e7\u00f5es com plantas medicinais continuam, como aconteceu na d\u00e9cada de 90 com a panaceia do Aloe vera, quando o frade franciscano Romano Zago, um brasileiro de S\u00e3o Francisco de Assis (Rio Grande do Sul, Brasil), na altura professor de Filosofia e de Latim no Convento de San Salvatore, em Jerusal\u00e9m, deu a sua primeira grande entrevista \u00e0 revista argentina \u201cFlorecillas de Tierra Santa\u201d, por ter \u201ccurado\u201d a leucemia de Geraldito, uma crian\u00e7a argentina, o cancro de Linda, irm\u00e3 de uma amiga da freira Silvana, da Comunidade de Aida (Israel) e o cancro de frei Rafael Caputo, director de uma Escola eclesi\u00e1stica na Terra Santa.<\/p>\n<p>No ano passado (2020) tamb\u00e9m uma vidente em Madag\u00e1scar anunciou ter recebido uma mensagem para a cura da Covid-19, com uma planta (<em>Artemisia annua<\/em>), que at\u00e9 n\u00e3o \u00e9 nativa daquele pa\u00eds e de onde se extrai um produto qu\u00edmico (artemisinina), que \u00e9 o medicamento mais recente para a mal\u00e1ria. Foi o suficiente para que, em S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, onde existe uma planta que designam por &#8220;atlimija&#8221;, o Presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Medicina Tradicional anunciou um xarope (\u201cCovid\u201d), dizendo que tinha suco da Artemisia de Madag\u00e1scar. Acontece que em S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe n\u00e3o ocorre a <em>Artemisia annua<\/em> e que a planta da qual ele fabricou o dito xarope milagroso para a cura da Covid-19, a &#8220;atlimija&#8221;, n\u00e3o \u00e9 uma Artemisia, mas sim a <em>Pluchea sagitalis<\/em>, uma planta da mesma fam\u00edlia, nativa da Am\u00e9rica Tropical, mas introduzida nestas ilhas. E tal como aconteceu em Portugal com os \u201cmilagres\u201d do Aloe vera, o xarope \u201cCovid\u201d e seus atributos foram not\u00edcia na televis\u00e3o santomense. Felizmente, uma farmac\u00eautica esclareceu publicamente o logro, tendo o referido fitoterapeuta reclamado que ela lhe estragara o neg\u00f3cio. No entanto, a fabula\u00e7\u00e3o da Artemisia espalhou-se por alguns pa\u00edses da \u00c1frica Ocidental. Julgo que ainda n\u00e3o chegou ao nosso pa\u00eds. Aqui, foi anunciado, por alguns dos nossos \u00f3rg\u00e3os da Comunica\u00e7\u00e3o Social, um tratamento para a Covid-19 descoberto por cientistas da Universidade de Nottingham (Gr\u00e3-Bretanha), com um produto (<em>thapsigargina<\/em>) extra\u00eddo de uma planta (<em>Thapsia garganica<\/em>). Houve logo uma s\u00e9rie de entusiastas para ver se a planta, que \u00e9 da fam\u00edlia da cenoura, existia em Portugal. Ora, os referidos cientistas publicaram um artigo sobre os efeitos antivirais da thapsigargina, com resultados promissores, mas ainda muito preliminares e apenas em ratos. H\u00e1 v\u00e1rios cientistas a pesquisar compostos qu\u00edmicos de plantas com actividade anti-SARS-Cov2, como os publicados (2020) por cientistas da Universidade de S. Petersburgo (R\u00fassia). Mas, at\u00e9 se conseguir um medicamente h\u00e1 um amplo trabalho experimental e de pesquisa cient\u00edfica. Por exemplo, at\u00e9 se iniciar a comercializa\u00e7\u00e3o do primeiro medicamento oncol\u00f3gico obtido a partir das taxanas do teixo-do-pac\u00edfico (<em>Taxus brevifolia<\/em>), foram necess\u00e1rios cerca de 30 anos.<br \/>\nClaro que, tal como aconteceu com outras curas milagrosas, n\u00e3o certificadas cientificamente, como as do alo\u00e9, da morinda, do mangust\u00e3o, j\u00e1 h\u00e1 xaropes, not\u00edcias e livros sobre plantas que curam a Covid-19. Basta ir \u00e0 \u201cWikipedia\u201d. Tenho verificado que o Brasil \u00e9 um local de origem destas fabula\u00e7\u00f5es com plantas medicinais. O interessante \u00e9 que utilizam sempre plantas, cujos atributos medicinais s\u00e3o conhecidos desde a Antiguidade Grega e da medicina ayurv\u00e9dica oriental.<\/p>\n<div id=\"attachment_23471\" style=\"width: 812px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/IMAGEN-Hypericum-androsaemum-Artigo-JORGE-PAIVA.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-23471\" class=\"size-full wp-image-23471\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/IMAGEN-Hypericum-androsaemum-Artigo-JORGE-PAIVA.png\" alt=\"\" width=\"802\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/IMAGEN-Hypericum-androsaemum-Artigo-JORGE-PAIVA.png 802w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/IMAGEN-Hypericum-androsaemum-Artigo-JORGE-PAIVA-300x193.png 300w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/IMAGEN-Hypericum-androsaemum-Artigo-JORGE-PAIVA-768x493.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 802px) 100vw, 802px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-23471\" class=\"wp-caption-text\"><em>Hypericum androsaemum<\/em><\/p><\/div>\n<p>Infelizmente, a comercializa\u00e7\u00e3o de plantas medicinais em Portugal, n\u00e3o est\u00e1 legislada. Tem de ter as mesmas normas que a comercializa\u00e7\u00e3o dos medicamentos. H\u00e1 medicamentos que s\u00f3 se vendem com receita m\u00e9dica e outros s\u00e3o t\u00e3o t\u00f3xicos que n\u00e3o se vendem nas farm\u00e1cias e s\u00e3o administrados por um m\u00e9dico ou um enfermeiro, como acontece com alguns medicamentos oncol\u00f3gicos. No ano passado (2020) apareceu-me no gabinete, uma senhora idosa que trazia uma embalagem com peda\u00e7os de uma planta seca, que tinha comprado num \u201cherban\u00e1rio\u201d, mas que n\u00e3o lhe parecia ser a que ela costumava utilizar. Consegui identificar a planta e fui ao \u00fanico livro de confian\u00e7a que tenho sobre plantas medicinais e traduzi-lhe (o livro \u00e9 estrangeiro) uma frase que referia extrema precau\u00e7\u00e3o com a concentra\u00e7\u00e3o das infus\u00f5es, pois podiam ser letais. Quando disse \u00e0 senhora que letal significava mortal, ela ficou muito assustada. Eu sosseguei-a e disse-lhe que a melhor solu\u00e7\u00e3o era n\u00e3o utilizar a planta daquela embalagem, pois n\u00e3o valia a pena queixar-se do vendedor, por n\u00e3o haver normas legais para o incriminar. Neste pa\u00eds, ainda medieval na comercializa\u00e7\u00e3o de plantas medicinais \u00e9 muito comum vender-se \u201cgato por lebre\u201d e qualquer pessoa pode vender. Basta ir ao Ger\u00eas, onde na rua se vende como hiperic\u00e3o-do-ger\u00eas (<em>Hypericum androsaemum<\/em>), uma planta que \u00e9 um hiperic\u00e3o (<em>Hypericum perforatum<\/em>) que n\u00e3o \u00e9 o do ger\u00eas nem tem as mesmas propriedades, pois o do ger\u00eas (<em>Hypericum androsaemum<\/em>) \u00e9 uma planta protegida, que n\u00e3o se pode colher, nem vender.<br \/>\nAl\u00e9m disso, ainda temos feiras de plantas medicinais, tipicamente de cariz medieval, plenas de folclore, mitifica\u00e7\u00f5es e fabula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o sou contra o uso de plantas medicinais. O que n\u00e3o tolero s\u00e3o negociantes sem escr\u00fapulos, pseudo-especialistas em plantas medicinais, e a libertinagem na comercializa\u00e7\u00e3o dessas plantas, algumas altamente t\u00f3xicas.<\/p>\n<div id=\"attachment_23474\" style=\"width: 295px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/FOTO-Jorge-Paiva.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-23474\" class=\"wp-image-23474 size-full\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/FOTO-Jorge-Paiva.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"177\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-23474\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Paiva<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Jorge Paiva (Bi\u00f3logo)<\/strong><\/em><br \/>\nJorge Paiva \u00e9 um bot\u00e2nico com obra de m\u00e9rito reconhecida internacionalmente. Descobriu diversas esp\u00e9cies de plantas novas para a ci\u00eancia. Algumas receberam o seu nome. \u00c9 investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra. Foi galardoado com o Grande Pr\u00e9mio Ci\u00eancia Viva Montepio 2014.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/cultura_ciencia_tecnologia-peq.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-23473\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/cultura_ciencia_tecnologia-peq.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"96\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A esp\u00e9cie humana, quando n\u00e3o encontra explica\u00e7\u00e3o real para determinados fen\u00f3menos, procurou sempre sossegar as suas d\u00favidas ou inquieta\u00e7\u00f5es com fundamenta\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas. Por isso, inicialmente, a maioria das civiliza\u00e7\u00f5es foram regidas por normas mitol\u00f3gicas. Com o aumento do conhecimento, principalmente atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, muitos dos mitos v\u00e3o tendo explica\u00e7\u00e3o, embora, muitas vezes, inicialmente se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1872,"featured_media":23472,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,10],"tags":[],"class_list":["post-23469","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pams","category-as-plantas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1872"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23469"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23475,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23469\/revisions\/23475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23472"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}