{"id":26498,"date":"2025-11-20T17:20:28","date_gmt":"2025-11-20T16:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/?p=26498"},"modified":"2025-11-20T17:20:28","modified_gmt":"2025-11-20T16:20:28","slug":"portugal-o-pais-que-deu-o-nome-a-laranja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/2025\/11\/20\/portugal-o-pais-que-deu-o-nome-a-laranja\/","title":{"rendered":"Portugal, o pa\u00eds que deu o nome \u00e0 laranja"},"content":{"rendered":"<p>Na Gr\u00e9cia chama-se portok\u00e1li. Na Turquia, portakal. Na Ge\u00f3rgia, portokhali. No Ir\u00e3o, porteghal. Nos pa\u00edses \u00e1rabes, burtuq\u0101l. Na Alb\u00e2nia, portokall. Na Rom\u00e9nia, portocal\u0103. E at\u00e9 nos Balc\u00e3s e no C\u00e1ucaso ecoa a mesma sonoridade. Em quase toda esta vasta regi\u00e3o, da Europa Oriental ao M\u00e9dio Oriente, o nome da laranja lembra um mesmo pa\u00eds: Portugal.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/oranges-1117628_1280.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-26486\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/oranges-1117628_1280.jpg\" alt=\"\" width=\"850\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/oranges-1117628_1280.jpg 850w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/oranges-1117628_1280-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/oranges-1117628_1280-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><\/a>Poucos povos ter\u00e3o deixado uma marca t\u00e3o doce na l\u00edngua dos outros. Nos s\u00e9culos XV e XVI, os navegadores portugueses cruzaram mares e culturas, trazendo do Oriente a laranja doce, a Citrus sinensis, que at\u00e9 ent\u00e3o era desconhecida no Mediterr\u00e2neo. A variedade amarga vinda dos \u00e1rabes j\u00e1 era cultivada, mas a nova, suave e perfumada, conquistou paladares e imagin\u00e1rios. Era a laranja que chegava de Portugal, e assim ficou conhecida: a fruta de Portugal.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria deste fruto \u00e9, na verdade, uma li\u00e7\u00e3o sobre a for\u00e7a discreta da cultura. Enquanto as caravelas regressavam de Goa ou de Cant\u00e3o carregadas de especiarias e sedas, traziam tamb\u00e9m sementes e \u00e1rvores que transformariam os mercados e os jardins europeus. Quando os gregos saboreavam o novo fruto, diziam que vinha do ocidente distante, e chamaram-lhe portok\u00e1li. O mesmo fizeram os turcos, os persas e os \u00e1rabes. A palavra espalhou-se como um perfume de citrinos, levando consigo o eco de um nome que os ventos do com\u00e9rcio e da curiosidade tinham tornado universal.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi uma conquista de espada nem de tratado, mas de sabor. O nome \u201cPortugal\u201d ficou gravado nas conversas das feiras, nos preg\u00f5es dos vendedores, nos l\u00e9xicos de l\u00ednguas antigas. Dizer burtuq\u0101l no Cairo ou portakal em Istambul \u00e9, ainda hoje, pronunciar Portugal com o sotaque do Oriente.<\/p>\n<p>Curiosamente, h\u00e1 quem diga que a pr\u00f3pria cor \u201claranja\u201d entrou nas l\u00ednguas europeias depois do fruto. Antes dele, chamava-se simplesmente \u201camarelo-avermelhado\u201d ou \u201cacor-de-fogo\u201d. A chegada da laranja doce deu nome a uma cor, inspirou pinturas e poemas, e at\u00e9 mudou h\u00e1bitos alimentares. Na \u00cdndia, a palavra narangi originou o termo ingl\u00eas orange, mas no Oriente continuou a chamar-se \u201cPortugal\u201d ao fruto. At\u00e9 hoje, em Atenas, Istambul, Tbilissi ou Teer\u00e3o, pedir um portok\u00e1li ou um porteghal \u00e9 uma forma, ainda que inconsciente, de saborear um peda\u00e7o da hist\u00f3ria portuguesa.<\/p>\n<p>Esta heran\u00e7a lingu\u00edstica \u00e9 um testemunho raro da mem\u00f3ria viva das viagens portuguesas. Um pa\u00eds pequeno, de costas voltadas para o mar, deixou o seu nome espalhado por continentes n\u00e3o apenas em mapas, mas na do\u00e7ura quotidiana de um fruto. Talvez nenhuma gl\u00f3ria seja mais serena e duradoura do que esta: ter dado nome \u00e0 cor do sol e ao sabor do amanhecer.<\/p>\n<p>Paulo Freitas do Amaral (Professor, Historiador e Autor)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Gr\u00e9cia chama-se portok\u00e1li. Na Turquia, portakal. Na Ge\u00f3rgia, portokhali. No Ir\u00e3o, porteghal. Nos pa\u00edses \u00e1rabes, burtuq\u0101l. Na Alb\u00e2nia, portokall. Na Rom\u00e9nia, portocal\u0103. 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