{"id":505,"date":"2007-05-15T17:03:32","date_gmt":"2007-05-15T16:03:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/?p=505"},"modified":"2018-08-20T14:26:17","modified_gmt":"2018-08-20T13:26:17","slug":"a-recriacao-da-natureza-entrevista-com-ribeiro-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/2007\/05\/15\/a-recriacao-da-natureza-entrevista-com-ribeiro-telles\/","title":{"rendered":"A Recria\u00e7\u00e3o da Natureza: Entrevista com Ribeiro Telles"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 margem do Congresso &#8220;Jardins do Mundo&#8221; que se realizou no Funchal nos passados dias 9-12 de Maio de 2007, o Portal do Jardim foi conversar com o Arquitecto Paisagista Gon\u00e7alo Ribeiro Telles. Uma personalidade incontorn\u00e1vel do mundo do Jardim, dedicou toda uma vida \u00e0 defesa dos valores da Terra e do Ambiente. Recebeu, no \u00e2mbito tamb\u00e9m deste congresso, uma merecida homenagem que partilhou com o fil\u00f3sofo Eduardo Louren\u00e7o (leia mais <a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/2007\/05\/ribeiro-telles-e-eduardo-lourenco-homenageados-na-madeira\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0125.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20076\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0125.jpg\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"702\" srcset=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0125.jpg 468w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0125-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><\/a><strong>Portal do Jardim (PdJ)<\/strong> &#8211; Qual \u00e9 a sua primeira mem\u00f3ria de um jardim?<\/p>\n<p><strong>Arq. Ribeiro Telles (RT)<\/strong> &#8211; A Av. da Liberdade, onde nasci.<\/p>\n<p>PdJ &#8211; Enquanto jardim?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Enquanto avenida&#8230; A avenida \u00e9 um jardim.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; E que import\u00e2ncia tinha para si?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Era um s\u00edtio onde se passeava, onde se brincava. De certo modo um s\u00edtio apraz\u00edvel com \u00e1rvores.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Sempre gostou do jardim num contexto urbano, correcto?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; O jardim \u00e9 qualquer coisa que \u00e9 independente do contexto urbano e \u00e9 independente de outro contexto qualquer.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; O Arquitecto costuma dizer que \u00abtudo \u00e9 um jardim\u00bb&#8230;<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Tudo caminha para tal. A humaniza\u00e7\u00e3o da terra, do territ\u00f3rio, caminha evidentemente para uma paisagem bela, para uma paisagem equilibrada, portanto \u00e9 um macrojardim. O que n\u00e3o quer dizer que um macrojardim n\u00e3o contenha depois microjardins, na acep\u00e7\u00e3o mais perfeita do termo, que \u00e9 um microcosmos, uma paisagem ideal.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Quando \u00e9 que decidiu ser Arquitecto Paisagista?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Encontros. At\u00e9 como era uma mat\u00e9ria que n\u00e3o estava lan\u00e7ada no pa\u00eds, fui caminhando no sentido da agronomia, primeiro \u2013 e paralelamente tinha condi\u00e7\u00f5es para arquitectura, portanto tinha dois caminhos a seguir. Segui o da agronomia, mas na agronomia encontrei os primeiros passos da arquitectura paisagista, num curso livre de arquitectura paisagista e foi assim, uma obra do acaso.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Estabelece alguma liga\u00e7\u00e3o entre a sua viv\u00eancia na inf\u00e2ncia da Avenidade da Liberdade e a sua escolha em enveredar pela sua \u00e1rea profissional?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o. [risos] Acho que n\u00e3o vale a pena tentar encontrar liga\u00e7\u00f5es dessa ordem.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; N\u00e3o estabelece essa liga\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; N\u00e3o. Eu demarquei a Avenida da Liberdade por que dela tamb\u00e9m fazem parte os quintais que existiam. Portanto, tanto bric\u00e1vamos na Avenida da Liberdade como brinc\u00e1vamos nos quintais.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Que resultado \u00e9 que pensa que ter\u00e1 este desaparecimento progressivo dos quintais na vida das fam\u00edlias?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; H\u00e1 um regresso negativo. Como sabe, os quintais est\u00e3o todos a ser transformados em garagens, em pavimentos imperme\u00e1veis e est\u00e3o a desaparecer. A\u00ed h\u00e1 um aspecto muito negativo para a cidade, para a cidade como habitat, como conforto e at\u00e9 como beleza. \u00c9 tr\u00e1gico o que est\u00e1 a acontecer &#8211; a destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do que era o verde integrado na pr\u00f3pria cidade.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Acha que a viv\u00eancia dos jardins pode trazer felicidade?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Tudo contribui. O que interessa \u00e9 saber escolher e saber viver.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Como \u00e9 que v\u00ea a tend\u00eancia dos munic\u00edpios continuadamente cederem ao lobby do bet\u00e3o, ou da celulose?<\/p>\n<p>R<strong>T &#8211; \u00c9 uma falsa ideia de progresso, que de certo modo se criou da ideia de que o progresso era o volume constru\u00eddo. O choque da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial levou a que isso parecesse ser o progresso, quando isto \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 progresso, \u00e9 at\u00e9 retrocesso. Portanto estamos nessa \u00e9poca de transforma\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Pensa que ser\u00e1 um problema de falta de forma\u00e7\u00e3o c\u00edvica por parte dos decisores? Acha que se trata de press\u00f5es externas?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; \u00c9 as duas coisas juntas. Muitos est\u00e3o convencidos que o futuro resulta de um artificialidade total da vida, de superficialidade e de uma maneira de viver que vem da facilidade dos fluxos energ\u00e9ticos para a vida humana, que est\u00e1 a acabar. Portanto temos que n\u00e3o andar para tr\u00e1s, temos \u00e9 que recriar as condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Acha que esse \u00e9 o caminho para inverter a situa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; \u00c9 recriar, n\u00e3o de ir para tr\u00e1s. Enfim, uma recria\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma cria\u00e7\u00e3o que tem um sentido determinado e umas bases determinadas. Evidentemente que portanto \u00e9 um reencontro com a Natureza, mas no sentido humanizado da Natureza, em que se inclui tamb\u00e9m, mas n\u00e3o s\u00f3, os problemas da protec\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, da produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. N\u00f3s vivemos de facto num sistema ecol\u00f3gico forte, que vive tamb\u00e9m de transformar esses espa\u00e7os de protec\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os de recreio.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; H\u00e1 hoje uma moda emergente, especialmente em Fran\u00e7a, de criar jardins verticais. Como v\u00ea esta op\u00e7\u00e3o arquitect\u00f3nica?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; \u00c9 mais um aspecto decorativo, que n\u00e3o resolve o assunto. \u00c9 o mesmo que pegar numa fachada e revesti-la de azulejos, onde antes nada existia. H\u00e1 um elemento fundamental a recriar nesta paisagem global do futuro, porque n\u00f3s caminhamos para uma paisagem onde os dois sistemas, o natural e o artificial do abrigo, se v\u00e3o conjugar e harmonizar. Nos diferentes espa\u00e7os, em que muitas vezes \u00e9 o cont\u00ednuo o elemento constru\u00eddo e o residual \u00e9, digamos, o elemento verde, tem que haver uma interliga\u00e7\u00e3o entre essas situa\u00e7\u00f5es e as situa\u00e7\u00f5es em que se d\u00e1 o contr\u00e1rio, em que o elemento cont\u00ednuo \u00e9 o sistema natural e o elemento descont\u00ednuo \u00e9 constru\u00eddo. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o grande jogo do planeamento moderno.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; H\u00e1 hoje nitidamente um decr\u00e9scimo no contacto entre jovens e a Natureza, as zonas rurais. Numa confer\u00eancia recente, o Arq. Ribeiro Telles sugeriu que deveria haver subs\u00eddios para os jovens voltarem ao campo e \u00e0s aldeias. Acha que \u00e9 uma proposta vi\u00e1vel?<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; Subs\u00eddios n\u00e3o, mas sim capitalizar os jovens \u2013 que \u00e9 diferente do subs\u00eddio.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; Um forma de conduzir os jovens&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0124_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20078\" src=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0124_1.jpg\" alt=\"\" width=\"702\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0124_1.jpg 702w, https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-content\/uploads\/DSC_0124_1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 702px) 100vw, 702px\" \/><\/a><strong>RT &#8211; N\u00e3o \u00e9 para conduzir, \u00e9 para fazer viver as aldeias, em que os jovens s\u00e3o fundamentais. A possibilidade de fazer viver as aldeias, n\u00e3o \u00e9 com o turismo \u2013 que vem a seguir, \u00e9 recuperando a agricultura de base local e de base regional. \u00c9 essa de facto a que hoje est\u00e1 a ser muito necess\u00e1ria para o pa\u00eds e n\u00e3o a de competi\u00e7\u00e3o a n\u00edvel internacional. A recupera\u00e7\u00e3o da agricultura para espa\u00e7o, para protec\u00e7\u00e3o. A agricultura n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1bricas, para apertar parafusos&#8230; A agricultura \u00e9 um mundo que trabalha, que tem actividade no solo, solo esse que \u00e9 um elemento da crosta terrestre de transi\u00e7\u00e3o da parte geol\u00f3gica para a atmosfera, fundamental para toda a vida humana, e para toda a vida. Por isto \u00e9 que houve a necessidade de criar reservas de protec\u00e7\u00e3o ao solo, que foram t\u00e3o mal entendidas pelos t\u00e9cnicos, pelos munic\u00edpios, pensando que eram obst\u00e1culos ao desenvolvimento quando eram de facto a garantia do desenvolvimento.<\/strong><\/p>\n<p>PdJ &#8211; \u00c9 optimista quanto ao futuro, naquilo que diz respeito aos jardins e o modo como s\u00e3o vividos? Esses microcosmos&#8230;<\/p>\n<p><strong>RT &#8211; N\u00f3s partimos de uma natureza primordial, que \u00e9 chamada de primeira natureza e o Homem transformou essa primeira natureza numa natureza mais bela, biologicamente mais activa, mais biodiversificada at\u00e9, com a cria\u00e7\u00e3o das orlas e portanto o problema \u00e9 recriar esse sistema, porque sen\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 vida. Portanto, quando se ouve estas campanhas constantes em nome do desenvolvimento at\u00e9 da liberdade das pessoas poderem fazer o que quiserem em qualquer lado&#8230; at\u00e9 t\u00e9cnicos juristas e economistas ca\u00edram nessa \u00abarara\u00bb e arranjaram estes \u00abtrinta e um\u00bb tremendos que s\u00e3o os fogos florestais, a expans\u00e3o urbana indiscriminada, que agora se v\u00eaem aflitos para resolver. &#8220;A solu\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 a recria\u00e7\u00e3o, \u00e9 novamente a interven\u00e7\u00e3o para situa\u00e7\u00f5es de modernidade de uma paisagem global que inclui os sistemas naturais, florestais e cultura e os sistemas de abrigo artificiais onde est\u00e3o as constru\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 margem do Congresso &#8220;Jardins do Mundo&#8221; que se realizou no Funchal em Maio de 2007, o Portal do Jardim foi conversar com o Arquitecto Paisagista Gon\u00e7alo Ribeiro Telles.<\/p>\n","protected":false},"author":1872,"featured_media":20077,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24,7],"tags":[2570],"class_list":["post-505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-featured","tag-personalidades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1872"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=505"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20080,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/505\/revisions\/20080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldojardim.com\/pdj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}