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Jardim de anuais – Parte 2 (Trabalhos outonais)

Com a chegada do outono muitas das anuais presentes nos nossos jardins já completaram o seu ciclo de vida e podemos pensar que chegou a altura do tão merecido descanso. A verdade é que um jardineiro empenhado não tem descanso, nem mesmo no outono quando muitas das plantas que o rodeiam se preparam para abrandar o ritmo.

Esta é a altura de colher as sementes das plantas anuais, que ainda não foram colhidas, de as secar e guardar para o próximo ano. É, também, altura de limpar o jardim, mobilizar o solo, integrando toda a matéria vegetal existente, de forma a devolver um pouco dos nutrientes que lhe foram retirados pelas plantas, e deixá-lo a descansar até à próxima época de sementeiras. Se forem mais exigentes, podem começar já a plantar, por entre as perenes existentes nos vossos jardins, alguns bolbos de floração primaveril, ou aproveitarem até para transplantar alguns arbustos que já não estão em floração e que se preparam para entrar, ou já entraram, no período de dormência. As cameleiras são um exemplo disso, e este é o momento para transplantá-las.

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A propagação, por estacas, de algumas herbáceas e arbustos como os Echium L., Cistus L. (estevas), cóleus, hypoestes, e sálvias, embora tardiamente, pode ainda ser feita. Assim, aproveito para abordar a temática da estacaria e, nesta minha primeira abordagem, decidi deixar como exemplo a propagação dos cóleus e hypoestes, plantas fáceis de enraizar em condições básicas.

Os cóleus (Solenostemon scutellaroides), herbáceas perenes na sua zona de origem – Sudeste Asiático, são muito utilizadas ornamentalmente, sobretudo pela policromia existente nas suas folhas que torna secundária a existência das pequenas flores azuis produzidas por esta planta. No entanto, por cá, o nosso clima temperado não é o suficiente para que estas vistosas plantas se comportem como perenes, sendo necessária a sua propagação todos os anos após o verão, início do outono.

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De Madagáscar, os hypoestes (Hypoestes phyllostachya), herbáceas perenes também cultivadas pela beleza das suas folhas, são mais resistentes e sobrevivem ao nosso inverno. Contudo, temos o cuidado de produzir novas plantas anualmente para, na eventualidade de alguma morrer, termos como substituir.

A propagação de ambas as espécies pode ser feita por sementes ou estacas. Nós utilizamos a estacaria porque nos permite obter sempre a planta que desejamos, ao contrário da propagação por semente que, devido ao processo da polinização, pode originar plantas diferentes.

A preparação das estacas é muito simples e as dicas que aqui vou deixar são as que utilizo praticamente para a propagação de todas as herbáceas e arbustos que costumamos propagar. O substrato a utilizar para o enraizamento, bem como as condições de temperatura e humidade é que vão variando consoante as exigências das plantas a reproduzir.

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Para a estacaria, devem colher-se os ramos mais saudáveis das plantas e preparar logo de seguida as estacas. Se não puderem fazê-lo de seguida, devem colocar os ramos em água de forma a evitar a desidratação das mesmas.

As estacas devem ter cerca de 10 cm, e preparam-se com uma lâmina bem afiada, fazendo um corte em bisel na base da estaca, de forma a aumentar a área de enraizamento, logo abaixo ao nó basal, zona onde surgirão as novas raízes. Devem retirar o excesso de folhas anexas ao caule, deixando apenas as que estão no topo do ramo. O excesso de folhas aumentará a transpiração na estaca e, consequentemente, a perda de água que dificilmente é recuperada uma vez que não existem raízes.

 

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Para ajudar no enraizamento, podem mergulhar todo o caule da estaca num fungicida próprio para o efeito, vendido em casas comerciais da especialidade. O fungicida ajudará a proteger as estacas de possíveis fungos existentes no solo que, juntamente com a humidade em excesso, podem causar a podridão da base da estaca.

Depois da utilização do fungicida, ou mesmo que não o utilizem, podem, também, mergulhar a base da estaca numa hormona de enraizamento. A mais utilizada é a auxina, hormona que estimula o crescimento vegetal e, portanto, quando aplicada à base do caule, ajuda no crescimento e desenvolvimento de raízes.

Após a preparação das estacas resta colocá-las no solo, enterrando-as até cerca de metade da estaca, normalmente até ao segundo nó do caule desaparecer, e regar. Deve-se manter o solo húmido, principalmente junto à estaca mas não esquecer que se o encharcarmos demasiado, estamos a aumentar a probabilidade de as estacas apodrecerem.

Como referi anteriormente, os cóleus e hypoestes são plantas de fácil enraizamento, pelo que não recorremos a nenhum substrato especial, ou condições de temperatura muito específicas. Utilizamos o solo existente no jardim e mantemos os vasos dentro da estufa.

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Quando começarem a observar o crescimento de novos rebentos, significa que o enraizamento ocorreu com sucesso, o que normalmente acontece cerca de um a dois meses após a colocação das estacas.

Espero ter-vos deixado com vontade de experimentar e fico à espera do vosso feedback sobre as vossas estacarias.

Bom trabalho!

Carina Amaral Costa, com 29 anos, é natural da Ilha de São Miguel, Açores.
Concluiu, na Universidade dos Açores, uma licenciatura e mestrado em Agronomia, e desempenha as funções de Eng. Agrónoma no Parque Terra Nostra desde 2012.
Colabora com o Portal do Jardim dando largas ao gosto pela escrita e pela partilha de conhecimentos.
Promete, mensalmente, relatar o seu quotidiano num dos parques mais ricos a nível botânico, abordando conteúdos sobre plantas, técnicas de jardinagem utilizadas, problemas fitossanitários e respetivos tratamentos. Todavia, e perante tamanha diversidade existente no local onde trabalha, os conteúdos a abordar são ilimitados.

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